Junho 22, 2005

Falicísmo e idiotices (Uma Ode a Ricardo)

Pois é,


 


Como esse
blog também
tem de ser cultura,


Vejam a
asneira que foi
dita por alguém que se diz


pagão desde a pré adolescência e mais, que já tem


27 anos
de idade... Ninguém
merece!


O nome
do cara é Ricardo:


"Quanto ao símbolo mesmo, se fossemos adotar a cruz pagã como


simbolo,teria que ser em X.


E
eu jamais vi um Wiccano ou bruxo usar a cruz pagã, mas sempre


o pentagrama.


Ou
ainda não sabe fazer o ritual
de proteção psiquica?


Se
vc faz o sinal da cruz, isso é com
vc... Quando vc abre circulos


sagrados,abre em formato de cruz?


estranho isso,
pois sempre vi eles em formato de pentagrama,


ou melhor:


pentáculo...


enfim: use o que quiser,
mas acho estranho um wiccano bitolado


como
vc fazendo o sinal da cruz"



Agora sugem as perguntas:


1- Cruz
pagã como um "X"? Será que
ele tirou isso dos Arquivos X?


2- Qual
ritual de proteção Psíquica?


3- Círculos Sagrados em formato de Pentagrama? Ou melhor Pentáculo?


Para mim
o rapaz está surtado!


Bem, vamos à explicação do princípio do falicísmo pagão
contido na cruz:


Falicísmo
= Falus


Na cruz,
que já era
usada por ocultistas muito, mas muito antes do
cristianismo,


também
encontra-se
representado o GRANDE RITO.




Lembre-mo-nos que mesmo o pentagrama foi largamente utilizado


pelo cristianismo
na
idade média e mesmo na moderna, e nem por isso


devemos
vê-lo
como um símbolo do
catolicísmo ou
mesmo com


exclusividade por
bruxos.


Lembremo-nos
ainda da
cruz celta. Que representava esse princípio do


falicísmo muito antesmesmo
de ser adotada pelos
cristãos celtas.




Temos ainda a cruz perfeita, encruzilhada, que será o símbolo
dos


4 elementos, sendo utilizada
para representar
deuses e deusas


como Hécate
e Hermes.




Mas a cruz utilizada ( e não disso a cruz do...) pelo catolicísmo
ou


cristianismo
transmite através do princípio do falicísmo
exatamente


o que
temos de mais sagrado no paganismo, que é o sexo


envolvendo
ambos os gêneros.


Lembrem-se
de que a religião católica não existia...
foi um grande


compêndio de informações de
outras religiões
e prática, principalmente


Herméticas, pagãs
e judaicas.


A cruz
dita errôneamente como cristã, representa exatamente o


princípio do falicísmo que
já era pagão
e ocultista a muito tempo.




A parte superior da cruz, vista como _____




representa uma visão angular do círculo, visto de lado = O




Já a parte inferior, que é vista como I na verdade seria o falo...


Enquanto
O = princípio
feminino, ou vagina. Assim, a cruz representaria


o falo
sendo introduzido na vagina, indo em direção ao útero,
provocando


assim
a criação...


GRANDE RITO.


Junção
dos antagônicos como a única forma de criação.




Por isso, a cruz na visão cristã seria o renascimento, o símbolo
da


nova vida.




Esse é o princípio do falicismo presente nesse símbolo
PRÉ-CRISTÃO.


Falei e disse!


MillenniuM.'.







Minha Experiência com a Nova Era

A INTRODUÇÃO







E lá fui eu no tal de workshop de xamanismo.

Bem, faz tempo que minha mulher tá insistindo

que eu tenho que entrar na nova era, que eu já era,

que não to com nada. Dai li o anúncio do tal de

workshop de xamanismo. Que coisa meu! Se tem um nome

desses deve ser muito legal. Workshop, venda de

trabalho né? Bem, vamos lá. Tá na hora de eu tomar

uma atitude na vida
mesmo, como vive dizendo a Rosinha todo dia.



Sei lá como apareceu um folheto em minha mesa,

achei até que era gozação dos colegas. O pessoal

aqui da firma é muito gozador. Colorido, bonito,

cheio de desenhos de animais, tigres, águias, coisa

linda mesmo. Anunciava um curso de final de semana

que prometia resgatar nosso poder interior, conectar

a gente com a luz (isso me impressionou), resgatar

nosso animal de poder, enfim, algumas coisas que eu

não fazia a menor idéia do que se tratavam. O

"facilitador" era um gringo bonitão de rabo de

cavalo nos cabelos e olhar penetrante. Bem,

"facilitador" deve ser uma coisa bem moderna, bem

nova era.



Liguei para pedir informações, a mocinha que me

atendeu foi muito simpática. Só que se espantou um

pouco quando eu disse a ela que eu era auxiliar de

contas a pagar. O que um auxiliar de contas a pagar

vai fazer num trabalho desses? Bem, fiquei

imaginando que tipo de pessoas faria um tal de

workshop de xamanismo, ainda mais com um

especialista americano que diziam ser o ó do

assunto. Será que auxiliar de contas a pagar não é

gente? Não pode querer evoluir e se encontrar, como

era prometido no anúncio?



Bem, eu não sou uma pessoa lá muito sofisticada.

Tive que trabalhar a vida inteira para me sustentar

e depois que eu casei então ficou mais complicado

ainda. Hora extra todo fim de semana e algum bico

para ajudar nas despesas, tipo fazer imposto de

renda do povo no começo do ano, época que faturo um

pouquinho mais. Só por isso tinha uma reservinha

para fazer o tal do workshop e tentar "dar um salto

quântico na minha vida", como dizia o folheto, e

seja lá o que for "salto quântico" na vida

da gente. Bem, to imaginando que pelo preço não

deve ser algo que doa. Só no bolso né?



Bem, vou contar pra vocês a historia desse curso

de final de semana que por se chamar workshop custa

os olhos da cara. Esse povo é sabido pacas. Mas

também tem uma coisa, agora estou na nova era!

Paguei meu pedágio. Se nao valeu ainda, só o ano que

vem vou poder fazer outro. Dessa vez vai ser de

renascimento, vocês vão ver só!!!



Bem, vamos lá.







Primeira Parte- A CHEGADA





Bem, antes de falar da chegada, deixa eu falar

da partida.

Rosinha estava orgulhosa. Fazia tempo que eu

não via ela aprovar nada do que eu fazia. Só

reclamava de meus amigos e do futebol no fim de

semana, nao sei porque ela se incomodava tanto. Era

para manter o físico ué, afinal a barriguinha já

estava ficando proeminente e lá pelo menos eu

gastava um pouco da cerveja consumida no happi hour

de sexta feira com os colegas da firma.



As crianças estavam felizes, parece que o

contentamento da mãe pegou nelas. Nesse momento eu

vi que estava fazendo a coisa certa, até me esqueci

da falta que ia fazer a grana que estava gastando e,

cheio de orgulho e de vontade parti para o ponto de

encontro para ir ao workshop.



Fomos de "besta", um grupo de umas 15 pessoas. O

guru americano e as organizadoras (sempre são

mulheres, ouvi dizer, sabe Deus porque) foram de

carro na frente. Foi meu primeiro contato com os

fazedores de workshop e futuros xamãs. Coisa

interessante, gente de todo tipo, mas ninguém que

fosse um auxiliar de contas a pagar como eu. Me

senti meio inferiorizado no meio daquele povo, umas

gatinhas com cara de inteligente, uns rapazes

cabeludos com cara de "especial", só gente

diferente, tipo meio cult dessas que se encontra em

festival de cinema europeu e concerto de jazz, e só

ai reparei que estava de gravata. Saco! Tentei tirar

disfarçado rapidinho, mas nem sei se consegui. De

qualquer forma, todo mundo fez que não viu. A

gravata é tão natural para mim que parece que faz

parte de meu corpo. Também, mais de 20

anos de escritório usando esse treco no pescoço,

até sinto falta quando estou sem ela. É uma

verdadeira amiga que me consola nos momentos de

agonia, eu fico

alisando ela, suave, gostosinha, até sinto falta

daquele apertadinho quentinho quando estou sem ela.



Mais tarde aprendi, durante o curso, que a

gravata é um objeto de poder pra mim. O americano

que sabia tudo de tudo que me disse, quer dizer, a

tradutora que ficava babando e parecia mais

importante que ele me disse que ele disse e eu tive

que acreditar, mesmo porque o máximo que eu sei

falar de inglês é big mac e coca cola. Mas quem

diria hein? A prosaica gravata é um objeto de poder!

Quando o povo do escritório souber que essa coisa

colorida é um objeto de poder vai rachar o bico. Mas

eu gostei e senti menos vergonha de ter que usar

essa coisa todo dia.



Bem, mas vamos falar da chegada propriamente

dita.

O lugar, um sitio especialmente preparado para

esse tipo de coisas. Com chalés e estrutura bem boa,

grama linda e árvores. A dona do lugar, vestida com

saias longas, coloridas e manchadas, cheia de

pulseiras, colares e aneis, com um cabelo que era

simplesmente indescritível e por isso não vou nem me

arriscar a descreve-lo, era uma tal de Nuvem

Purpura, bem, ela disse que esse era mesmo o nome

dela, Nuvem Púrpura da Silva, e que seu pai era fã

apaixonado por um tal de Hendrix, mas que preferia

ser chamada de "Shandranua" que é o nome que um guru

indiano deu uma vez pra ela. Bem, vai entender esse

povo né?



Nuvem Purpura, quer dizer, Shandranua recebeu a

todos com um sorriso, e abraçou cada um de nós,

homens e mulheres, com uma certa intensidade e

intimidade. Bem apertadinho. Parecia que estava

recebendo um amante que tinha saído pra comprar

cigarros e voltou uns 15 anos depois. Fiquei

completamente sem graça com aquela dona me

apertando, inclusive na parte de baixo, quase um

amasso. Que coisa meu! Acho esse povo muito

estranho, mas vou relaxar porque senão vai ser

difícil aceitar isso. Se a Rosinha abraçasse um cara

como essa dona me pegou eu largava dela na hora.



O povo, depois dessa cumprimentação toda, pegou

suas tralhas e cada um foi pro chalé que a dona do

"amasso" indicou. Todo mundo tinha mochila e umas

sacolinhas coloridas, só eu estava com minha mala de

viagem chinesa. Ninguém me avisou disso, que saco.

Fiquei num quarto com mais três caras, um deles,

o mais jovem, era o filho de um milionário que

estava buscando uma alternativa existencial de

renovação, a conselho de seu psiquiatra. Esse ai

tinha que tomar uns 4 ou 5 comprimidos antes de

dormir, e outro tanto durante o dia, mas mesmo

assim, de vez em quando escorria um fino fio de baba

do lado esquerdo de sua boca, mas estranhamente,

parece que ninguém reparava nisso, só eu. Será que

sou muito babaca ou muito preconceituoso?



O outro era um executivo que vivia fazendo

cursos para encontrar a si mesmo. Ele já tinha ido

até para a India e o Nepal, tinha ido para Ilha de

Pascoa e Machu Pichu, tudo em busca de si mesmo.

Achei muito esquisito esse papo porque não entendi

nada. O cara tava ai na minha frente e saia pra

procurar ele do outro lado do mundo? Perguntei se

ele tinha se encontrado, e ele disse que estava em

processo, estava cada vez mais próximo de si mesmo.

Cara! Que piração. Acho que o cara era doidinho com

esse papo. Coisa mais esquizofrênica sô!

Meu outro companheiro de quarto era um gay

assumido, um intelectual que sabia tudo de

candomblé.

Acho que o cara era até meio pai de santo, só

falava de Ogum, Oxum, Ananaraie não sei o que e

coisas assim. Ninguem ligava que o cara era viado,

que no meio desse

povo que está em busca da "verdade" num curso de

final de semana não cabe preconceito de tipo nenhum.

Claro que eu disfarcei e nem tirei um sarro do

boiola, achei melhor fingir que nem ligava de ficar

num quarto com um viadinho. Resisti bravamente à

tentação de tirar uma com o cara, mas enfim, acho

que ja comecei a evoluir e entrar na nova era, deve

ser por ai o caminho. Puxa! O curso já começou a

fazer efeito e nem começou de verdade ainda! Que

coisa hein? Ta valendo a grana! Rosinha vai pirar

com o novo cara que vai voltar dessa vivencia, ops,

desse workshop.



Depois de uma sopa com gosto de incenso e algum

negócio natureba meio gosmento que prefiro nem saber

o que é, fomos dormir.



Bem, aconteceu o seguinte nessa primeira noite:

o pai de santo gay falava coisas em africano a noite

inteira, era um tal de "ogunhe salun salamalun

poroxotóqui" que não acabava mais. O rapaz dos

comprimidos dava pulos e gritava a noite inteira

igual um deseperado sendo espremido num moedor de

cana. O executivo peregrino gemia muito e no meio

dos gemidos gritava "mami, mami, não me abandone"

com vozinha de criança. Bem, acho que ninguém se

incomodou com meus roncos, se bem que só consegui

dormir de madrugada.







Segunda Parte Acho que vai Começar o Workshop





Eu gosto de todo tipo de musica, do bolero ao

samba canção, do rock ao axé e por isso não estou

muito acostumado com esse tipo de musica que fica

nhénnnn nhénnnn nhénnnn que não acaba mais, e de
vez

em quanto toca um sininho no meio. Eu ficava

esperando a hora que tocava o sininho para tentar

ficar acordado e me

distrair um pouco. E olha que tocava o dia todo,

quase não dava para perceber quando mudava de uma

musica para outra. Chegou uma hora que eu nem

escutava mais,

ainda bem, senão seria um sono só. Que chatura

aquilo!

E foi com uma musica dessas, tocada a todo

volume, que acordaram a gente. Bem, no começo eu não

sabia que aquilo era musica, demorei pra entender o

negócio. Um

gemido sem fim com umas batidinhas no meio e o

inevitável sininho que fazia "pin", mas só que

demorava pra caramba esse "pin". No começo, ainda

meio sonado, achei que era parte dos roncos ou da

sinfonia de gemidos daquele povo, mas no fim acabei

sacando que aquilo era a musica de workshop. Parece

que são todos mais ou menos assim, ouvi dizer. Deu

até saudades de um sambinha.



Eram seis da matina e tivemos todos que pular da

cama, principalmente na hora que a Shandranua entrou

no quarto e com sua voz "new age" (sim, por incrível

que pareça existe isso. Todo mundo aprende falar com

voz new age nesses workshops) e foi, meio

ronronante, meio sussurante dizendo: "bom dia meus

irmãozinhos! Está um lindo dia! O pai sol está

sorrindo para nós! Vamos todos despertar para a

vida! O céu está azul radiante! Os passáros estão

cantando sua sinfonia!" e mais uma

seqüência de frases do tipo que dava mesmo era

vontade de continuar dormindo.



Fomos todos para o salão de refeições. Todo

mundo com cheiro de banho tomado e aquele cheiro de

shampo de flores silvestres, e prontos para começar

nossa

aventura do auto-conhecimento, como ouvi alguém

dizer.



O café da manhã foi muito bom. Pão integral

feito em casa, leite tirado diretamente da vaquinha

da casa, queijo feito em casa, ovos das galinhas da

casa, café plantado e colhido em casa, manteiga

feita em casa, geléia feita em casa. Tudo natural e

bom, e se eu encontrar vendendo dessa marca por ai

vou comprar pra levar pra Rosinha. Ela vai gostar.



Shandranua, nossa anfitriã, não parava de

elogiar as coisas "feitas em casa" dela. E todo

mundo concordava para ver se ela parava um pouco de

falar, mas não funcionou muito.



O nosso "faciltador", que chamarei de Mr. Hi

(porque é assim que o pessoal o chamava) tomou café

da manhã junto com todo mundo, quer dizer, em uma

mesa tomada

pelas suas fãs. O cara é mesmo um gostosão, mas

acho que vou me controlar nesses meus comentários

senão vão pensar que eu estava com inveja. Vai que o

cara é gay né? (ops! Olha a inveja rapaz!)



Quando todo mundo terminou de encher a pança,

Mr. Hi se levantou e foi para o páteo onde

aconteceriam os trabalhos. Todos se levantaram e o

seguiram.







TERCEIRA PARTE Finalmente começa o Workshop

(ufa!)





Eu confesso que estava meio sem graça com aquele

povo. Eles eram muito diferentes de mim, e apesar de

ninguém me olhar de modo esquisito, eu achei que

esse negócio de não olhar com estranheza para os

esquisitos (pra eles eu era o que? Um tremendo

esquisito, claro) era um procedimento padrão,

afinal, esquisitos é o que não faltava ali.



O primeiro exercício foi a apresentação de todo

mundo. Cada um de nós tinha que escolher um "nome de

trabalho" que seria usado durante todo o final de

semana, e se a pessoa gostasse do nome, podia

adota-lo para o resto da vida.



Seria nosso "nome de guerreiro".

Graças a Deus que não entrei nessa, e vocês

saberão já porque.



O nome tinha que ser correspondente ao que

estava sentindo em relação a si mesmo, e o Mr. Hi

insistiu que deveriamos ser verdadeiros, mesmo que o

nome fosse

uma coisa feia ou meio ridículo.



Bem, eu estava me sentindo absolutamente

ridículo no meio daquilo tudo, e fazendo o maior

esforço para não me arrepender de não ter usado

aquela grana toda para

trocar os pneus do carro da Rosinha (só ela tem

carro em casa), que bem que estavam precisando...

bem, mas não era hora de pensar nisso. Era hora de

escolher um

nome que revelasse meu sentimento sobre mim

mesmo naquele instante. Ridículo não seria um nome

muito apropriado, até mesmo porque já não era mais

original.

É como, já que estou na chuva é pra me molhar,

então vou levar o negócio a sério e vou até o fim,

doa o quanto doer. Eu preciso entrar nessa tal de

nova era pra ver se a Rosinha fica mais carinhosa um

pouquinho comigo e para de me criticar e me chamar

de quadrado e múmia e coisas assim.



Escolhi o nome que revelava exatamente como eu

estava me sentindo no meio daquele povo.



Eu prestei bastante atenção na primeira pessoa

que parou na minha frente para nos apresentarmos.

Era uma moça muito bonita, provavelmente daquelas

que andam em

seus carrinhos que nem relâmpago no transito,

para desespero dos motoristas de taxi, tipo carinha

de estudante de psicologia da PuC ou algo assim. O

olhar um tanto blazê, mas que era bonitinha era.



"Eu sou Morgana, estudante de psicologia" disse

ela me olhando nos olhos (puxa, adivinhei que ela

era estudante de psicologia, eita workshop danado de

bom esse! Já estou "abrindo os canais", como dizem).





Nossa! Que nome legal essa mulher escolheu.

Muito criativo e original. onde será que ela

arrumou um nome desses? Fiquei até meio com vergonha

de dar o nome que eu tinha pensado, não era tão

especial e inédito assim, mas como eu resolvi

assumir a verdade doesse o quanto doesse, fui em

frente e disse: "Sou Bocó", ao seu dispor!



Que merda! A mulher caiu na gargalhada! Saco! Eu

sabia, eu bem que sabia que tinha que ter escolhido

um nome mais legal! Quis ser honesto e me ferrei. A

mocinha não conseguia para de rir.

Todos os outros ficaram meio assim sem graça

porque não estavam entendendo o que estava

acontecendo, mas quando ela ria histericamente e

dizia "Bocó, ahahahaha, Bocó, ahahahaha" alguém

perguntou: "porque você está agindo assim com o

rapaz?" (eu era o rapaz, claro), e ela só conseguia

dizer: "bocó! Ahahahaha , bocó! Ahahahaah". Já

estava ficando chato aquilo. Eu estava mais vermelho

que um pimentão, como dizem.

De repente alguém entendeu que "Bocó" era o meu

apelido nova era (esqueceram de que era para

expressar o sentimento do momento, conforme orientou

o Mr. Hi), e um por um foram todos caindo na

gargalhada e foi o maior tumulto!

A tradutora assistente do Mr. Hi (será que ele

estava comendo ela?) apareceu com um sininho no qual

ela batia histericamente com um pauzinho tentando

acalmar a turma, mas demorou um pouco para as

risadas pararem, e mesmo assim de vez em quando

algum riso meio soluçado escapava de alguém,

ameaçando detonar novamente a onda de gargalhadas.

Acho que o povo estava com muita tensão

reprimida, por isso riram tanto. Uma psicóloga do

grupo me explicou isso mais tarde. Bem deve ser, mas

que ela riu até ter

que ir fazer xixi correndo, riu, que eu vi!



Bem, seja como for, já me tornei de imediato o

cara mais popular da turma, era um tal de Bocó pra

cá, Bocó pra lá que não acabava mais. De vez em

quando alguém

dizia "pergunta pro Bocó". Bem, acho que era

alguma ironia de gente mais presunçosa, mas prefiro

pensar que quem vem buscar auto conhecimento nesses

cursos é

gente que, por não ter ainda o auto conhecimento

e por isso mesmo pagou para vir buscar, respeita a

falha e deficiência de auto conhecimento dos outros.

Vou pensar assim para não achar meus companheiros de

workshop uns metidos a besta. Me recuso a acreditar

que gente metida a besta venha fazer esse tipo de

trabalho.



Bem, depois dessa interrupção toda, continuaram

as apresentações.



Parei em frente à pessoa seguinte, uma mulher

com cara de séria, psicóloga já formada na Puc e ela

disse: "Feiticeira da Noite, psicologa". Bem,

Feiticeira da

Noite deve ser o que ela estava sentindo quando

escolheu esse nome. Que tipo de sentimento é esse

não sei, mas deve ter a ver alguma coisa com a

vontade de ser bruxa. Até que, pelo tamanho do nariz

dela, ela não teria muita dificuldade para chegar

lá. Já tinha mais de meio caminho andado (ops!

Comporte-se rapaz!

Esse tipo de comentário jocoso não é próprio de

gente do auto conhecimento).



"Bocó, auxiliar de contas a pagar" disse eu,

olhando fixo nos olhos dela. Bem, ela não caiu na

gargalhada, mas acho que teve que fazer tanta força

pra segurar a risada que teve que ir correndo de

novo no banheiro pra soltar o ar reprimido dentro

dela. Foi essa mesma que me disse a analise dela dos

conteúdos reprimidos e tal do povo. Bem...



Acho que vou pular as apresentações que o

assunto está entediante. Entre risadas apertadas e

disfarçadas e um monte de Fadas do Entardecer,

Guerreiro do Infinito,

Raio de Sol, Duende da Harmonia, Liliths e

outras combinações disso mais aquilo, todo mundo

acabou se apresentando e Mr. Hi, que tinha ficado

sentado em uma

cadeirona bebendo uma laranjada enquanto nos

submetíamos àquela primeira experiência,

levantou-se, pegou um tambor cheio de penas

penduradas e disse:



"You ta ta ta, ta ta ta, te te te, ay, ay

,ay...." que a tradutora (graças a Deus!) traduziu

assim: "Vocês agora vão fazer uma viagem ao túnel
do

inconsciente para encontrar seu animal de poder!"

(de agora em diante vou pular a fala do Mr. Hi que

não entendo patavina de inglês e vou direto pra fala

da tradutora).



É o seguinte, tínhamos que relaxar, imaginar

estar entrando em uma floresta e caminhar ao som das

batidas do tambor, caminhar, caminhar até encontrar

a entrada

de uma caverna. Daí a gente entrava na caverna e

ia andando até encontrar um animal. Mr. Hi disse que

tinha certeza que encontraríamos um animal em nosso

caminho. Provavelmente ele se aproximaria da gente e

iria se comunicar de alguma forma. Deveríamos trazer

esse animal conosco no retorno de nossa viagem

xamânica e ele seria um tipo de companheiro para o

resto de nossas vidas, e seria o nosso animal de

poder, ao qual poderíamos recorrer sempre que

houvesse necessidade.



Bem, vamos lá né gente? Deitei no colchonete e

fiquei ligado no tambor, fazendo direitinho o que

foi falado para fazer. Caminhei um bocado pela

floresta e nada de achar a tal caverna. Saco!

Comecei a ficar meio aflito que não tinha caverna

nenhuma. Sera que eu não estava fazendo direito?

Abri um olho e dei uma espiada disfarçada pro lado.

Todo mundo que eu vi estava com a maior cara de

felicidade, pareciam estar indo para o paraíso.

Saco! Saco! Saco!



Lembrei da grana que tinha pago para fazer esse

workshop. Foi dinheiro economizado das horas extras

que eu fiz de final de semana. Dinheiro suado

economizado ostão por tostão do que a gente

conseguia fazer sobrar comprando carne de segunda,

deixando de ir no cinema e nunca gastando dinheiro e

restaurantes.

Até pizza a Rosinha fazia em casa pra gente

economizar que na pizzaria fica muito cara e feita

em casa sai bem baratinho. E olha que a pizza da

Rosinha é um arrazo, especialmente a de catupiri com

alho e uma que ela inventou de chicória, alho e

erva-doce, acho que meio uma pizza assim nova era

não é? Lembrei das crianças e do que poderia ter

comprado para elas, o videogame que o Edenilson, o

mais velho, tanto queria, a boneca Barbie que era o

sonho da Edinalva, a mais novinha. Saco!



E o tambor batendo, e nada de caverna.

Estava pensando na Rosinha. No que eu diria pra

ela? Ela estava tão feliz por eu ter pela primeira

vez na vida ousado fazer alguma coisa diferente. Eu

não podia decepciona-la, tinha que encontrar meu

animal de poder.

Estava imerso nesses pensamentos quando e

repente o tambor parou. Mr. Hi disse para voltarmos

lentamente e trazermos em nossa consciência e em

nossos corações o animal que tínhamos encontrado na

caverna. Esse seria nosso animal de poder.

Bem, não tinha passado nem meia hora. Como esse

povo é esperto e rápido hein? Acho que tenho mesmo

muito que aprender.



Eu estava morrendo de vergonha e arrependimento.

Já me sentia ridículo e humilhado por causa do nome

de guerreiro que tinha escolhido em minha inocência

de querer ser honesto comigo mesmo. Estava agora me

sentindo mais fraco e ridículo ainda, pois todos

foram se levantando com um sorriso vitorioso,

provavelmente trazendo seus animais de poder junto e

eu, nadica de nada. Saco!



O que eu diria para Rosinha?



"Posso falar?" quase que gritou uma moça.



"Pode sim, Violeta Cósmica" Disse o Mr. Hi,

"estamos aqui para compartilhar nossas experiências

entre todos".

Gente, realmente a voz de "new age" do Mr. Hi

era demais! Passava uma serenidade e sabedoria de

arrepiar, mesmo pra quem não sabia falar ingles como

eu. Além do mais, o cara lembrava o nome de todo

mundo! Que memória.



Bem mas também, "Violeta Cósmica" é de lascar,

até eu lembrava esse, e me lembro inclusive que

fiquei um tempão pensando em como essa figura foi

encontrar um

nome desses. Que coisa.



"Eu encontrei a caverna", disse ela com sua voz

meio pro tipo daquelas moças que anunciam a chegada

e partida de aviões no aeroporto, onde aliás as

crianças adoram ir aos domingos ver avião subindo e

descendo.



"E fui escorregando para dentro dela até que

ficou plano e eu cheguei em um caminho cheio de

flores lindas e perfumadas, todas branquinhas",

prosseguiu a moça.



Nessa altura eu já estava com a maior inveja da

Violeta! Além de eu não ter encontrado porcaria de

caverna nenhuma, a dela ainda tinha arranjo de

flores!

Pode uma coisa dessas? Imaginei até a igreja no

dia do meu casamento, tinha flores brancas em todo o

caminho até o altar, exigência da Rosinha (lembro

que custou

uma nota esse capricho, ainda bem que o tio rico

dela pagou tudo). Ela ia adorar a viagem xamânica da

Violeta Cósmica.



"Depois de muito caminhar por esse caminho lindo

e suave, saltar alguns regatos de águas cristalinas

e puras...", bem, daí acho que ela estava exagerando

um

pouco. Como podia saber que as águas dos tais

regatos eram puras? Bom, acho que um riacho dentro

de uma caverna xamanica só pode ter água pura, tem

lógica.



Então ela prosseguiu: "... então eu vi uma

sombra se movendo por traz das touceiras de flores.

Levei um susto e quase voltei pra consciencia. A

sombra ia e vinha, não dava para ver direito o que

era, passava por traz das árvores, até que de

repente deu um salto e caiu em pé na minha frente.

Era um gorila enorme. Preto. Imenso. Com braços

enormes e musculosos, e um peitão incrível. Seus

dentes eram muito brancos e assustadores, mas eu não

tive medo. Ele me olhou com muita ternura e me pegou

em seus braços..."



Ops! Meu Deus! Eu nessa hora não resisti de ter

um pensamento bem safado sobre as preferencias

sexuais da moça, mas escondi rapidinho o pensamento

que afinal de

contas estávamos em um grupo xamanico em busca

do auto conhecimento e não era lugar de ficar

pensando safadezas.



"Então", disse Violeta, "ele me trouxe de volta

para a superficie, para a floresta e veio comigo.

Sinto ele dentro de mim. Sinto o poder do gorila

dentro de meu ser..."



Nesse instante Mr. Hi, que estava ouvindo tudo

pela boca da tradutora, que pensando bem, era bem

interessante e parecia muito íntima dele, bem, Mr.

Hi interrompeu a historia da Violeta Cósmica e

disse:



"Muito bem, voce encontrou teu animal de poder.

É um animal poderoso que vai te proteger e cuidar de

você. Nenhum mal pode te acontecer com esse gorila

junto com

você. Ele lhe dará força e sabedoria".



Meu Deus! Como eu posso viver sem um animal de

poder, pensei eu. Como pude viver até agora sem a

proteção de um animal para cuidar de mim e me guiar?

Acho que é por isso que minha vida tem sido tão

difícil. Eu preciso encontrar a tal caverna, preciso

muito! Já me sentia quase desesperado. Rosinha tinha

razão! Eu precisava entrar na tal de nova era pra

descobrir essa lacuna na minha vida e porque me

sentia tantas vezes tão vazio e sem sentido. Nesse

instante o pai de santo gay levantou a mão e pediu

licença para falar.



"Eu quero contar minha jornada ao tunel do

inconsciente", disse com força na voz. Bem, ele não

tinha voz assim efeminada, pelo contrário, tinha uma

voz forte bem de macho. Vai entender.



"Eu entrei no túnel e logo veio um leão se

aproximando. O leão era enorme, com sua juba dourada

pelos raios do sol. Chegou perto de mim e disse: sou

o leão que te acompanha, sempre lutarei por você

contra seus inimigos, sempre o deixarei forte e

poderoso. Agradeci a ele por ser meu companheiro e

lhe perguntei o nome. Buguiu N agun Dalelê, disse

ele, que quer dizer poderoso rei das savanas "



Agora foi demais! O cara é o maior viadinho,

mesmo com essa aparência de macho e esse

cavanhaquinho de personagem de novela. Não engana

ninguém. Pô, o animal

do cara é um baita leãozão! Como pode? Eu que

sigo minha vida direitinho, respeito minha Rosinha,

cuido dos meus filhos, trabalho feito uma mula para

dar de comer a eles, nem perto do tal do túnel

cheguei? Caramba, tá me dando a maior frustração

essa situação. Será que por não ser sofisticado
como

esse povo todo eu não mereço encontrar meu

animalzinho? O do cara é um leão que fala e até tem

nome! Caramba!

Nesse instante o Mr. Hi interrompeu minhas

lamentações mentais dizendo:



"Meu caro Querubim! Que belo animal você tem!

Ele te protegera e te acompanhará em sua caminhada

pelas savanas da vida"

E eu pensei, ah! Querubim! Vê se pode. O nome de

guerreiro do cara é nome de anjinho, ah! Esse não

engana ninguém. Se o pessoal da firma estivesse aqui

iam cair matando tirando o sarro dele. Viado eles

não perdoam.



Então, depois de mais umas 3 ou 4 jornadas

maravilhosas por lugares fantásticos e , que nem se

fosse para imaginar o tempo que tivemos daria, o Mr.

Hi virou-se pra mim e disse:



"And You, Mr. Bocó?" e mais uns trecos que a

tradutora traduziu, sobre eu contar minha jornada.



Eu fiquei entre mentir e inventar uma historia

bem mirabolante como as que tinha ouvido, ou dizer a

verdade. Bem, achei melhor dizer a verdade, pois se

eu não tinha conseguido nem achar a caverna talvez a

incompetencia não fosse só minha. Talvez o tempo

tenha sido curto demais, ou talvez ele não tenha

batido direitinho no tambor, quem sabe?







QUARTA PARTE Encontro com meu animal de poder,

finalmente!





Falei que não tinha conseguido encontrar a boca

da caverna do inconsciente ou seja lá o que for. Mr.

Hi se mostrou preocupado e atento e me mandou deitar

no chão e relaxar. Pediu para que todos os outros

fizessem um circulo em volta de mim e ficassem me

mandando sua energia com as mãos.



Disse que o primeiro animal que eu encontrasse

seria meu animal de poder. Garantiu que ele estava

esperando por mim em algum ponto do caminho, para eu

não ter

medo, para eu acreditar, etc, etc.



Deitei e vi aquele povo todo com as mãos

apontadas para mim tremelicando os dedos. Achei

engraçado. Aprendi, eu acho, que é assim que se faz

para passar energia com as mãos. Achei interessante

que todos eles já pareciam saber como era isso.



Relaxei o quanto pude com aquele bando de gente

fazendo cócegas à distancia em mim e, ouvindo o tam

tam do tambor do xamã. Me imaginei caminhando pela

floresta e realmente encontrei a entrada de um

buraco. Entrei lá e estava tudo escuro. Não tinha

flor nem nada. Fui andando e meus olhos se

acostumaram com a

escuridão. Parece que andei uma eternidade e

nada de animal nenhum aparecer.



Depois do que pareciam séculos, logo em seguida

a uma curva do tunel que não tinha nada nem de

bonito e nem de engraçado, era só um buraco na

terra, dei de cara

com, bem, vocês não imaginam com o que!



Uma barata enorme! Daquelas marronzonas e pata

cheia de espetinho. Das bitelas mesmo. Nunca tinha

visto uma tão grande.



A barata me olhou e eu olhei para ela. Nem sei

se aquilo eram olhos, mas achei que eram. As antenas

mexendo de um lado para o outro sem parar. Fiquei

com nojo do bicho, fiquei com medo também, mas

principalmente, fiquei apavorado de imaginar que

aquela coisa era meu animal de poder.



Todo mundo tinha tigre, águia, leopardos, leões,

só animais bonitões. Bem, uma barata já era demais

pra mim. Até anta servia. Mas barata? Santo Samsa!



Mr. Hi interrompeu o toque do tambor e mandou eu

voltar. Eu sai daquele estado e fui me sentando.

Todo mundo em volta de mim esperando para saber o

que o Bocó tinha para dizer.



Eu não disse nada. Fiquei com a maior vergonha

de dizer que meu animal de poder era uma barata! E

uma barata que nem falava comigo, só ficava mexendo

as

anteninhas.



Mr. Hi ficou olhando com seu olhar penetrante,

me esperando revelar o que eu experimentei em minha

jornada. Eu via centenas de olhos me olhando,

parecia que o mundo inteiro estava me esperando

revelar um segredo. Todos os outros aprendizes de

xamã olhavam meio que avidamente para mim esperando,

esperando... e

eu ficando agoniado. Uma barata? Que nojo.



Estava tentando me desconcentrar. Só pensava em

como desaparecer daquele lugar, cheguei a me

imaginar entrando pelo ralo e sumindo no esgoto,

cheguei a pedir socorro pra tal barata de poder ou

sei lá o que. Bem, até que fazia sentido uma barata

nessa coisa de sumir pelo buraco escuro da vida...

to até ficando poético. Meu Deus!



Nesse instante, entre a imagem de uma caminhada

pelos túneis do esgoto de mãos dadas com a barata e

o sentimento de imensa vergonha de ter um animal de

poder que nem ao menos falava comigo como os outros,

Mr. Hi me tocou no ombro e disse: "You are with the

spiriti of ISHINAYA in yourself!".



Bem, eu só ouvi o Ishinaya, seja lá que espirito

for esse e na hora, por puro reflexo gritei: Saúde!

Caramba! Acho que não estava nos meus melhores

dias. Foi uma gargalhada só. Puxa vida, como é que

eu ia saber? Parece que todo mundo sabia o que era

ter o espírito da tal Ishnaya, menos eu. Que fora!

Mais um.



Fiquei mais enrolado ainda, mas até que foi bom

ter acontecido isso, porque ficou mais fácil no meio

das gargalhadas dizer que meu animal de poder era

uma barata.



E atendendo o apelo de Mr. Hi, que estava muito

sério e não riu nem um pouco, até mesmo porque acho

que não entendeu o meu "saúde", disse novamente "Let

s go Mr. Bocó!", assim meio seco.



Uma barata! Falei, quase gritando, quase

chorando, e aconteceu algo que não me surpreendeu

nem um pouco: outra onda de gargalhadas

insuportáveis.



Mr. Hi fingiu que nem ouviu as risadas. Depois

de disfarçar a cara de perplexidade que ficou

estampada e que me lembrarei para sempre, começou a

falar. A tradutora teve que engolir o riso e

traduzir o que ele dizia, entre um soluço e outro,

com lágrimas nos olhos de tanto rir.



"It s a straordinary and powerfull guide. The

Cockroach!", ou seja, "É um extraordinário e

poderoso guia. A Barata!", e prosseguiu dizendo que

eu era um privilegiado de ter um animal de poder tão

raro e especial assim. Que a barata me conduziria

para o mundo subterrâneo sempre que eu precisasse,

que com o poder da barata (minha arata!) eu iria a

lugares onde nenhum homem foi e mais um monte de

coisas especiais e interessantes que faziam valer a

pena ter a barata como um animal de poder.



Olhei para o povo só pra ter o gostinho de ver o

olhar de inveja deles. Tomou? Esses abestalhados que

se acham melhores que os outros nem sabem ou que

perderam, ou melhor, sabem agora. Eles só tem

águias, leopardos e esses bichos comuns que só

conhecem assistindo o mundo animal na tv a cabo.



Eu tenho uma barata!



Mr. Hi conhece seu oficio. Me convenceu

direitinho que eu levava vantagem em ter uma barata

comigo o resto da vida. Fiquei satisfeito e de alma

lavada depois de tanta gozação pro meu lado. Esse

homem é um sábio!







QUINTA PARTE - O ENCERRAMENTO DO WORKSHOP





Depois de três dias e noites inteiros de muitas

vivências e experimentações xamânicas com nossos

animais de poder, e depois de muitas viagens ao

túnel do inconsciente, quando descobri que algumas

daquelas pessoas tinham nos seus túneis verdadeiras

"Disneyword" e outras um shopping center completo

com floricultura, area de serviços e lazer e cinco

salas de cinema e tudo mais que tinham direito,

enquanto meu túnel era sempre pura e simplesmente um

túnel, digno de uma simples e prosaica barata,

chegou enfim o momento do grande encerramento do

nosso workshop de xamanismo.



Até então, o grande momento do workshop, fora o

primeiro e emocionante encontro com o animal de

poder, foi a experiencia de vivenciar a própria

morte.



Ficamos todos mortos no caixão, imaginando

nossos parentes e amigos se despedindo da gente. Foi

muito emocionante. Pena que depois de uns 10

minutinhos de

vivência, ou de mortência, Mr. Hi interrompeu as

batidas no tambor e consequentemente nosso

exercício.

Tivemos que ressuscitar todos rapidinho porque

senão não daria tempo de seguir o programa completo,

e ainda mais estávamos perto da hora do almoço. Uma

pena.



Mas voltemos ao "grand finale".



Faríamos a dança circular sagrada no estilo

escocês, coisa que achei meio estranha pra um curso

de xamanismo, mas parece que Mr. Hi tinha um

convênio com

não sei que instituição da escócia e daí era

assim que tinha que ser. Ele dançou alguns passos

girando e mostrou pra gente como deveriamos dançar.



A dança circular sagrada seria feita em torno da

fogueira sagrada, de acordo com o modelo de dança

dos pagés e morubixabas de algumas tribos, também

comuns

em workshops urbanos, segundo ouvi dizer, e que

rendem uma boa grana para alguns indios de plantão.





A "dança circular sagrada escocêsa" em volta da

fogueira sagrada kaiakangue" seria feita com a

incorporação dos animais sagrados de cada um de nós.

Haja sagrado!



Mr. Hi jogou algumas ervas sagradas e uns

pozinhos sagrados para consagrar a fogueira sagrada

(ai!) e começou a dança. Tamborzinho batendo cada

vez mais

rapido e furioso, conduzindo todos nós para o

êxtase apoteótico, como convém a um workshop desse

nível.



Dancei até! Cada um fazia o barulho do seu

animal de poder. Ouvia-se urros, trinados, estrilos,

grunhidos e eu com minha baratinha só podia fazer

"tlec, tlec, tlec" que é o único barulho que conheço

da barata.



Me chamou a atenção a dança da Fada Sussurrante,

uma mulher pernambucana, esposa de um deputado, que

vivia de fazer vivências e workshops por todo país

às custas da grana do contribuinte. Ela era bastante

presunçosa e autoritária, não tinha nada de fada e

muito menos de sussurrante, tratava os funcionários

da pousada,

inclusive Shandranua, como escravos, aos berros,

só faltava bater neles. Ela foi a que mais reclamou,

aliás, reclamou o tempo todo de tudo, do tempo, das

instalações, do banheiro, da água, da comida e

principalmente do fato do celular não pegar na

pousada.



Seu animal de poder era uma serpente que fazia

"fizzzzz, fizzzzz, fizzzz" o temo todo, e ela ficava

fazendo com a mãozinha como se fosse uma Cleopatra,

ao mesmo tempo que empurrava as pessoas para longe

dela, pois precisava de todo espaço do mundo e dizia

" sssai , sssssai, sssai de perto" com sua voz

sibilante de jararaca do norte.



Depois de dançarmos um bocado e estarmos todos

suados e bem fedidos teve o tal do abraço

ritualistico sagrado final.



Tinhamos que nos abraçar um por um para

consagrar (de novo) o momento, a coisa era mais ou

menos assim:



Cada um ficava parado em frente ao outro, olhava

com um olhar bem new age, meio olhar de golfinho

misturado com olhar de vaca tonta, daí se

aproximavam em camera

lenta um do outro com um sorriso também new age

nos lábios, meio estilo vegetariano, e se abraçavam.

Daí um deitava a cabeça no ombro do outro e dava uns

dois

ou três tapinhas nas costas para consagrar o

abraço, quase igual advogado faz quando cumprimenta

a algum parente de cliente importante em velório da

família, claro que advogado não deita a cabeça no

ombro do colega.



O pior é que estávamos todos muito suados e

grudentos de tanto dançar a dança circular sagrada

escocesa em volta da fogueira sagrada kaiakangue, e

alguns com um

cheiro um tanto intenso, talvez por causa do

animal de poder. Achei que essa foi a pior parte do

workshop, a mais melequenta pelo menos.



Depois de um banho e o inevitável amasso de

despedida com a Shandranua, que é da Silva, viemos

todos embora.



Enfim, termino aqui o meu relato, o depoimento

do momento que transformou minha vida e me incluiu

na nova era e me tornou um verdadeiro xamã. O

pessoal lá da firma vai se morder de inveja.



Serei o primeiro auxiliar de contas a pagar xamã

do mundo!



E finalmente Rosinha ia me olhar com mais

respeito e admiração.



O que a gente não faz pela mulher que ama hein?







EPILOGO





Mr. Bocó chega em casa, um pouco cansado de um

final de semana de atividades intensas e inéditas

pra ele, além da viagem expremido dentro de uma Van.



Rosinha o recebe com um abraço e um beijinho, as

crianças saltitantes e felizes com a volta do pai.



Chamou a atenção de Rosinha o novo modo de usar

a gravata de seu marido, amarrada na testa. Ficou

meio um neo hippie, mas ela gostou.



Depois de um breve e resumido relato em volta de

uma pizza new age que a Rosinha fez especialmente

para a volta do marido, ela lhe pergunta qual é

afinal seu animal de poder.



"The Cockroach" ele responde. Ela e as crianças

perguntam o que é isso, que bicho é esse e ele diz :

" é um poderoso animal de poder, e não encham mais o

saco que não quero falar nisso, animal de poder é

coisa meio secreta".



Elas percebem que é melhor não insistir senão

ele vai ter um de seus ataques de chatice e mal

humor, afinal é um marido e os maridos são todos

mais ou menos assim.



Todos se encaminham para a sala para assistir

TV, e nesse momento mr. Bocó se lembra de uma outra

coisa.



Interrompe a familia e fala com voz forte,

anunciando algo bem importante, todos mais ou menos

atentos, mas com um dos ouvidos já conectados na voz

do Faustão

apresentando suas pegadinhas na TV.



"Eu tenho incorporado em mim o espírito de

ISHNAYA!" diz com voz tonitroante.



O que se ouve então, quase gritado por três

bocas simultaneamente é um sonoro, simultâneo e

espontâneo...



Saúde!

Dezembro 04, 2004

Que criatura Mítica vc seria? Faça o Teste



I'M like a werewolf!






?? Which Mythical Creature Are You ??

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